Candidaturas femininas cresceram 925% em 24 anos, mas cadeiras conquistadas não acompanham o ritmo. Novo estudo revela o desafio da representação das mulheres no poder legislativo brasileiro.
O número de mulheres que disputam vagas para a Câmara dos Deputados cresceu consideravelmente, passando de 358 candidatas em 1998 para 3.668 em 2022, o que representa um aumento de aproximadamente 925%. Apesar desse crescimento expressivo, a quantidade de deputadas federais eleitas aumentou de 29 para 90, uma alta de 210%, mas ainda assim, a representação feminina no Legislativo é considerada baixa.
Esses dados foram divulgados no Portal da Classe Política, lançado hoje, 16 de junho de 2026, pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem), da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Nas eleições de 2022, as mulheres conquistaram 17,5% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 17,8% das vagas nas assembleias estaduais, os maiores percentuais já registrados, porém, ainda abaixo de um quinto da representação parlamentar total. Nas assembleias legislativas, a participação feminina é semelhante, com cerca de 18% de representação, distante do ideal de 50% de paridade com os homens e do mínimo de 30% exigido para as candidaturas.
“A baixa representação feminina produz impactos sobre a agenda pública e reduz o debate sobre temas essenciais para as mulheres nos espaços de decisão”, afirma Nilton Sainz, pesquisador da UFPR.
O aumento no número de candidaturas femininas é atribuído, em parte, à Lei das Cotas de Gênero (Lei 9.504/1997) e à Minirreforma Eleitoral (Lei nº 12.034/2009), que estabeleceu a reserva mínima de 30% das candidaturas proporcionais para cada gênero. No entanto, a legislação ainda não garantiu condições equitativas de competição para as mulheres.
De acordo com Sainz, um dos principais obstáculos para uma maior ocupação de vagas por mulheres no Legislativo é o controle partidário dos recursos. “As mulheres recebem menos recursos e costumam receber valores menores em dinheiro, enquanto os homens têm acesso a mais financiamento”, afirma o pesquisador, ressaltando também a exclusão sistemática das mulheres em cargos de decisão dentro dos partidos, o que impacta na visibilidade e no tempo de televisão durante as campanhas.
Outro aspecto preocupante mencionado é a existência de candidaturas ‘laranjas’, que são aquelas sem viabilidade real de disputa, criadas apenas para cumprir as cotas obrigatórias. Essa prática compromete a real representação feminina nas eleições.
“Quando as mulheres são excluídas dos espaços de poder, suas vozes são silenciadas e isso afeta diretamente a priorização de questões importantes como o combate à violência de gênero e políticas de saúde”, conclui Sainz.
O Portal da Classe Política não apenas apresenta dados sobre gênero, mas também transforma informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em indicadores visuais, permitindo análise detalhada de candidaturas, patrimônio e financiamento de campanhas ao longo de 14 eleições, de 1998 a 2024. Isso possibilita uma melhor compreensão do perfil de candidaturas e eleitos, além de facilitar o acompanhamento do funcionamento do legislativo.
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