O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve provocar efeitos limitados na balança comercial do Brasil. Apesar disso, alguns setores da indústria sentirão o impacto das novas tarifas, já que as medidas do governo americano afetam apenas 18% das exportações nacionais destinadas ao mercado estadunidense.
Especialistas indicam que as áreas que enfrentarão maiores desafios são aquelas que dependem significativamente das exportações para os Estados Unidos e têm dificuldades para redirecionar seus mercados. Entre os setores mais vulneráveis estão máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis.
No primeiro semestre de 2026, o Brasil importou US$ 1,5 bilhão a mais do que exportou para o mercado americano, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Com isso, o déficit comercial brasileiro e o superávit para os Estados Unidos se mantêm, mesmo diante do encolhimento do comércio bilateral desde o ano anterior.
As trocas comerciais entre os dois países totalizaram US$ 36,4 bilhões no primeiro semestre, representando uma queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado. As exportações brasileiras recuaram 13%, atingindo US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos diminuíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões. O resultado foi um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão para o Brasil.
No mês de junho, as exportações apresentaram um crescimento de 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões, impulsionadas pela alta de 11% nos preços médios. Entretanto, o volume embarcado caiu 6,6%.
A pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas, Lia Valls, afirma que o tarifaço dificilmente alterará o desempenho agregado da balança comercial brasileira, pois os Estados Unidos representam atualmente uma parcela menor das exportações nacionais. “O nosso grande mercado realmente é a Ásia, principalmente a China. A participação das exportações para os Estados Unidos caiu para cerca de 9,4%”, explica.
Os efeitos do tarifaço devem ser mais sentidos por empresas e setores que dependem do mercado americano. Valls destaca que a situação é preocupante especialmente para o setor de manufaturados, que é responsável pela geração de empregos no Brasil.
José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), também acredita que o efeito sobre o superávit comercial será mínimo. Segundo ele, “o superávit comercial brasileiro é derivado exclusivamente das commodities. O tarifaço poupou justamente commodities com as quais o Brasil compete com os Estados Unidos, como soja, suco de laranja e carnes”.
O cenário atual sugere que as novas barreiras tarifárias tendem a favorecer concorrentes internacionais. A avaliação de Castro é de que as retaliações propostas pelo governo brasileiro podem não trazer os resultados esperados, uma vez que o Brasil não possui a capacidade de causar danos significativos aos Estados Unidos.
A imposição das tarifas se baseou na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, permitindo que os Estados Unidos aplicassem medidas comerciais unilaterais. Entre os produtos mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos e calçados, enquanto itens como aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja não foram impactados pelas sobretaxas.
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