Acordo bilionário de cooperação nuclear entre EUA e Arábia Saudita, com duração de décadas, será submetido ao Congresso. Especialistas apontam contradições na política externa da administração Trump sobre enriquecimento de urânio.
O acordo de cooperação nuclear entre os Estados Unidos (EUA) e a Arábia Saudita, que deve durar por décadas e envolver bilhões de dólares, levanta questões sobre a política externa da Casa Branca em relação à questão nuclear. O pacto, que não foi totalmente divulgado, passará por análise do Congresso estadunidense.
A contradição na política americana é evidente, uma vez que o governo de Donald Trump busca estabelecer uma parceria com a Arábia Saudita, um país que pode enriquecer urânio para fins que, segundo o governo, são pacíficos. Isso ocorre em meio a uma guerra que pede o fim do enriquecimento de urânio no Irã, que alega que seu programa nuclear não tem intenções militares.
“Isso é um reconhecimento da falência do ‘escudo americano’. Tudo isso se dá em meio a um bombardeio pesado do Irã contra a Arábia Saudita”, comentou um historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), referindo-se à proteção que os EUA supostamente oferecem ao reino saudita.
Embora o governo Trump afirme que a Arábia Saudita não desenvolverá armas nucleares, especialistas e organizações que combatem a proliferação de armas atômicas expressam preocupação. A monarquia saudita não aceita assinar um “protocolo adicional” com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que permitiria inspeções-surpresa em suas instalações nucleares.
“Os líderes sauditas, por vezes, manifestaram o desejo de desenvolver um ciclo de combustível completo, desde a extração de urânio até o reprocessamento do combustível irradiado. Isso não é típico de países que estão apenas iniciando programas de energia nuclear”, alertou a Associação de Controle de Armas.
Além disso, um professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB) apontou que, apesar de a Arábia Saudita ter assinado o Acordo de Não Proliferação de Armas Nucleares, a parceria com os EUA envia um sinal contraditório para o Oriente Médio. “É alarmante porque, embora haja um compromisso para enriquecer o urânio para fins pacíficos, na trajetória do programa nuclear da Arábia Saudita, outros interesses podem surgir no futuro”, afirmou o professor.
O acordo também contrasta com a política nuclear dos EUA em relação à Coreia do Sul, que há décadas busca uma parceria semelhante para enriquecer urânio. Essa situação expõe um aparente duplo padrão na política nuclear americana, onde os EUA parecem abrir caminho para que a Arábia Saudita obtenha direitos de enriquecimento, enquanto negam essa possibilidade à Coreia do Sul, que já opera 26 reatores nucleares.
As negociações entre EUA e Arábia Saudita começaram em 2008, mas, segundo relatórios, não houve progresso significativo devido a divergências sobre condições de não proliferação e restrições ao enriquecimento e reprocessamento de material nuclear.
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