Mais de 50 mil migrantes chegaram a Ceuta em poucos dias, com cerca de 100 mortos, gerando crise humanitária. Especialistas, como o prof. Nuno Vidal (UFRJ), dizem que o êxodo só foi possível com anuência marroquina.
Especialistas em relações internacionais analisam o papel de Marrocos na recente crise migratória em Ceuta, uma cidade espanhola localizada em território africano, que recebeu mais de 50 mil imigrantes nos últimos dias, resultando em cerca de 100 mortes.
O professor de História da África da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Nuno Carlos de Fragoso Vidal, argumenta que a imigração em massa para Ceuta não poderia ocorrer sem algum tipo de anuência do governo marroquino. Ele observa que a recente aproximação do governo espanhol de Pedro Sánchez com grupos da esquerda que apoiam a independência do Saara Ocidental, um território ocupado por Marrocos, pode ter provocado uma reação do reino marroquino.
“O rei de Marrocos [Mohammed VI] chateia-se com esse apoio e resolve retaliar. Certamente aquela imigração em massa teve a anuência das autoridades marroquinas, muito certamente por conta da Frente Polisário, que é profundamente apoiada pelas forças de esquerda da Europa”, disse.
Por outro lado, o especialista em Europa e ex-senador pela Itália, José Luís Del Roio, destaca que o governo marroquino exerce um controle rigoroso sobre seu território, o que impossibilita a movimentação descontrolada de grandes grupos de pessoas. Ele menciona que a saída de aproximadamente 80 mil jovens não poderia ocorrer sem a conivência das autoridades marroquinas.
“Não é possível que deixem 80 mil jovens saírem correndo e não fazem nada. Se não fazem nada, é porque não quiseram fazer nada. O sistema marroquino é muito rigoroso no controle territorial. Então existe conivência, sim, do governo marroquino”, afirmou.
Del Roio também sugere que a imigração em massa pode ter sido programada por forças poderosas, citando Israel como um possível responsável, devido à sua capacidade de influenciar a situação e à insatisfação com a posição do governo espanhol em relação a Gaza e Cisjordânia.
No entanto, o professor marroquino de relações internacionais, Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC, discorda da ideia de que Marrocos tenha planejado a crise migratória. Ele enfatiza que a juventude marroquina enfrenta graves problemas, como aumento do custo de vida e falta de oportunidades, que levam muitos a sonhar em emigrar para a Europa em busca de uma vida melhor.
“O que tenho visto aqui na rua é o mal-estar em relação ao aumento do custo de vida, falta de oportunidades e o difícil acesso à saúde pública. Tudo isso faz com que a população marroquina sonhe em emigrar para a Europa em busca de melhoria de vida”, disse.
A inteligência espanhola, conforme reportado por um jornal local, concluiu que Marrocos não teria organizado a imigração em massa, mas que o governo de Rabat teria permitido a movimentação dos jovens, utilizando a situação em benefício próprio. Este ato foi caracterizado como uma demonstração de oportunismo político, frente a uma crise que já estava em curso.
Os eventos em Ceuta têm gerado discussões sobre a necessidade de políticas de imigração mais rígidas na Europa. A situação atual se assemelha a uma onda anterior que ocorreu em 2021, quando mais de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira para Ceuta, levando a acusações contra Marrocos de enfraquecer os controles fronteiriços.
O professor Nuno Carlos de Fragoso Vidal ainda ressalta que a relação entre Marrocos e Espanha permanece tensa, apesar do reconhecimento do projeto marroquino para o Saara Ocidental por parte do governo espanhol. A busca por uma maior influência no controle do Estreito de Gibraltar pode estar na raiz dessa tensão contínua.
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