Anistia Internacional Brasil enviou 15 anúncios ao Facebook; 14 traziam desinformação voltada a eleitores. O relatório foi divulgado nesta terça (25), a 40 dias do primeiro turno.
Um teste realizado pela Anistia Internacional Brasil apontou falhas do Facebook em filtrar anúncios com desinformação eleitoral. A análise foi divulgada nesta terça-feira (25), a exatos 40 dias do primeiro turno das eleições gerais, em 4 de outubro.
Segundo o relatório, foram submetidos ao Facebook 15 anúncios pagos, todos redigidos em português e direcionados exclusivamente à população brasileira em idade de votar, isto é, a partir de 16 anos. Entre esses envios, 14 continham desinformação eleitoral e apenas um era classificado como neutro. Os ativistas relataram que todos os anúncios foram programados para serem veiculados em data futura, de forma que pudessem ser cancelados pela Anistia Internacional antes da publicação.
Estratégias de desinformação identificadas
- Deslegitimação eleitoral: conteúdos que buscam minar a confiança nas eleições, nos sistemas de votação ou nos resultados eleitorais.
- Construção do inimigo: anúncios que apresentam adversários políticos e tribunais como ameaças à nação ou como atores ilegítimos.
- Autoritarismo com foco na segurança: mensagens que sugerem o uso da força, intervenção militar ou governo autoritário como resposta à criminalidade ou à desordem política.
Um dos anúncios incluía a afirmação:
“precisamos de uma revolução militar, não vote nas eleições, e os militares retomarão o poder se menos de 50% votarem!”
O levantamento mostrou que oito dos anúncios foram aprovados para publicação. Os sete rejeitados (incluindo o anúncio neutro) não o foram especificamente por conterem desinformação: a recusa foi justificada pela necessidade de verificação de identidade da conta antes de a publicidade ser veiculada. A ONG assinalou que essas notificações de rejeição “não indicavam que os anúncios haviam sido rejeitados por causa de seu conteúdo”.
Sobre o desempenho da moderação, a diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, declarou que “o fato de o sistema de moderação da Meta não ter detectado mais da metade dos anúncios de desinformação eleitoral é profundamente alarmante”.
O pesquisador e consultor em Inteligência Artificial e Direitos Humanos da ONG, Ummar Bashir, avaliou que a investigação indica que os sistemas de moderação do Facebook “podem não estar detectando de forma confiável” conteúdos de desinformação relacionados às eleições, e que isso “suscita sérias preocupações sobre se as salvaguardas eleitorais do Facebook estão sendo aplicadas de forma consistente”.
A Meta afirmou que o relatório da Anistia Internacional se baseou em “uma amostra muito pequena de anúncios que nunca foram publicados nem vistos por nenhum usuário” das suas plataformas, e que o estudo “não reflete a escala do trabalho da empresa”. A companhia disse ainda que seu processo de análise de anúncios possui diversas camadas de detecção, antes e depois da publicação, e que investe recursos para proteger o processo eleitoral de 2026 no Brasil, desde mecanismos de transparência em publicidade até protocolos para anúncios sobre questões sociais, eleições ou política.
O balanço financeiro da Meta indicou que mais de 97% da receita de US$ 60 bilhões da companhia no segundo trimestre de 2026 vieram da publicidade. A Anistia Internacional também observou que os envios foram realizados a partir de Londres, sem uso de VPN, o que motivou preocupação quanto ao risco de campanhas de desinformação promovidas por atores nacionais ou estrangeiros.
A propaganda eleitoral no Brasil é regulada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Resolução 23.610/2019 funciona como norma-mãe sobre o tema e foi complementada pelas resoluções 23.732/2024 e 23.755/2026.
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