Com shows que reúnem dezenas de milhares e o Brasil como 2º mercado mundial, cresce a curiosidade sobre quem financia os eventos e os bastidores. Investidores, patrocinadores e prefeituras figuram entre as fontes.
O Brasil é hoje o segundo maior mercado de shows ao vivo do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo levantamento da PwC. Nos últimos dias essa força ficou evidente em eventos que reuniram dezenas de milhares de pessoas e em festivais que colocaram artistas nacionais ao lado de atrações internacionais.
No sábado (19), por exemplo, o rapper BK’ reuniu 50 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo, e foi o primeiro rapper brasileiro a realizar um show solo em estádio. O Rock in Rio também concentrou apresentações de artistas brasileiros nos maiores palcos do país, em apresentações amplamente comentadas.
Ao mesmo tempo em que a presença do público sobe, há sinais de que os recursos que sustentam essa indústria não se expandiram de forma uniforme. Pesquisa da Serasa, por meio do Mapa dos Festivais, indica que 83% do público se planeja financeiramente para ir a shows e festivais. Ainda assim, 33% dos entrevistados já contraíram dívida por causa desse tipo de evento e 14% chegaram a deixar uma conta básica em aberto para não perder uma apresentação.
Há muitos artistas e produtores culturais empenhados em fazer essa indústria bilionária funcionar, enquanto parte do público se endivida pela paixão de participar desses eventos. Nesse contexto surge uma nova dimensão no debate: o papel das casas de apostas como patrocinadoras da cultura brasileira.
Paula Lavigne levantou essa discussão em coluna recente, apontando que empresas de apostas passaram a figurar como patrocinadoras de festivais, palcos, áreas VIP e transmissões. No curto prazo, esse aporte financeiro ajuda a viabilizar eventos, mas a coluna provoca uma reflexão sobre efeitos colaterais: o dinheiro destinado a apostas pode concorrer com despesas culturais e de lazer, reduzindo o orçamento disponível para ingressos, cinema ou outros programas.
Além disso, segundo estudo do Instituto de Estudos para a Política de Saúde citado por Paula Lavigne, os custos sociais associados ao jogo problemático são estimados em quase 40 bilhões de reais por ano. A análise também destaca outro ponto: a cultura não oferece apenas visibilidade ao patrocinador, mas também legitimidade. Quando uma marca aparece ligada a um artista ou festival querido pelo público, ela pode ganhar reconhecimento e novos espaços no imaginário coletivo.
O tema se complica quando esse patrocínio se insere em mecanismos de incentivo à cultura. Pequenos artistas muitas vezes não escolhem entre alternativas de patrocínio: aceitam o recurso disponível ou não conseguem realizar seus projetos. Essa dinâmica evidencia uma contradição do cenário atual do entretenimento no país.
O Brasil já demonstrou capacidade de lotar estádios, festivais e arenas, com público e repertório em alta. A discussão que segue é sobre fortalecer também a cadeia que opera abaixo dos palcos — produtores, técnicos, pequenos artistas e políticas públicas — para que a sustentabilidade financeira e as escolhas de patrocínio não comprometam a função social da cultura como espaço de acolhimento e alívio das tensões da vida cotidiana.
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