Especialistas dizem que a coalizão Escudo das Américas usa o combate a cartéis como pretexto para conter a influência econômica da China na América Latina. O grupo de 15 países levou a proposta à ONU e mira debate na OEA.
A coalizão Escudo das Américas, liderada pelos Estados Unidos e que reúne outros 14 países latino-americanos, usa o combate aos cartéis de drogas como pretexto para interferir nos países da América Latina e barrar a influência econômica da China na região. Essa é a avaliação de especialistas em relações internacionais consultados.
O debate ganhou força nesta semana, quando, às margens da 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, os 15 países da coalizão divulgaram um documento informando a intenção de levar a proposta do Escudo das Américas para dentro da Organização dos Estados Americanos (OEA). No documento conjunto, as nações concordaram ainda em classificar como “terroristas” 24 grupos narcotraficantes, entre eles, os brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
“O Escudo das Américas é uma retomada desse processo de tentativa de anexação colonial ou imperial dos países latino-americanos em relação aos EUA dentro de uma lógica geopolítica de disputa comercial e tecnológica com a China”
O documento divulgado pela coalizão combina medidas de combate às drogas com propostas de cooperação econômica, incluindo proteção das cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis. Esses minerais são insumos centrais para a indústria de tecnologia, defesa e transição energética, e figuram como foco da disputa comercial e tecnológica entre Washington e Pequim.
“[Defendemos nossas economias] promovendo regulamentações de fornecedores confiáveis para infraestrutura digital, aplicadas de forma não discriminatória”
Especialistas alertam que a iniciativa pode ter efeitos além do combate ao narcotráfico. Um dos consultados recordou, ao questionar a política declarada de combate aos cartéis, que um indulto concedido nos Estados Unidos liberou um antigo governante centro-americano condenado a 45 anos de prisão por facilitar a importação de toneladas de cocaína para os EUA, e indagou sobre a coerência entre retórica e prática.
“Uma pessoa que está comprometida a combater o narcotráfico vai dar indulto e liberar um narcotraficante? Eles querem combater o narcotráfico, mas no quintal dos outros. Internamente, o que eles fazem para controlar o controle desse crime organizado?”
Outro especialista ponderou que o foco principal do Escudo das Américas é a possibilidade de utilizar o narcotráfico para legitimar ingerências na América Latina. Segundo essa análise, a iniciativa também sinaliza para a China que a manutenção das relações com países da região teria de ser revista sob a perspectiva da política externa norte-americana.
“E, indiretamente, isso sinaliza para a China que a manutenção das suas relações com os países da região teria de ser revista e sob a perspectiva da política externa norte-americana”
O mesmo especialista acrescentou que a coalizão visa principalmente legitimar a presença física de tropas americanas na região a pretexto de combater o crime organizado.
“Uma vez convocada a reunião formal do Órgão de Consulta [da OEA], pretendemos participar em nível ministerial para considerar a adoção de uma resolução que promova e facilite a ação coletiva contra organizações narcoterroristas, nos termos do Tratado do Rio [TIAR, Tratado Interamericano de Assistência Recíproca]”
Sem ter sido convocado para participar da iniciativa, o governo brasileiro encara o Escudo das Américas com cautela, ao mesmo tempo em que mantém medidas de cooperação internacional no combate ao crime organizado. Brasília avalia que a iniciativa pode ser usada para obter alinhamentos automáticos no campo econômico, com possíveis restrições à presença da China na América Latina.
Países que integram o Escudo das Américas
- Estados Unidos
- Argentina
- Bolívia
- Chile
- Colômbia
- Costa Rica
- República Dominicana
- Equador
- El Salvador
- Guiana
- Honduras
- Panamá
- Paraguai
- Peru
- Trinidad e Tobago
Grupos e medidas citadas
- 24 grupos apontados para classificação como “terroristas” no documento conjunto.
- Primeiro Comando da Capital (PCC) — citado como incluído entre os grupos.
- Comando Vermelho (CV) — citado como incluído entre os grupos.
O debate envolvendo o Escudo das Américas mistura segurança, política externa e interesses econômicos em torno de minerais críticos e cadeias de suprimento. O governo brasileiro informou que aguardará a apresentação formal da proposta à OEA para decidir se apoiará ou rejeitará eventual resolução do organismo sobre o tema.
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