O coletivo paulista lançou nesta quarta (23) seu 5º álbum, Pra Gente Se Acabar, com 13 faixas e participações de Carlos Dafé, Silvia Machete e Abacaxepa. Após mais de 11 anos, integrantes discutem encerrar as atividades.
Samuca e a Selva lançou nesta quarta-feira (23) “Pra Gente Se Acabar”, o quinto álbum de estúdio do coletivo paulista. O disco tem 13 faixas e participações de Carlos Dafé, Silvia Machete e Abacaxepa. Depois de mais de 11 anos de estrada, os integrantes colocaram em discussão a possibilidade de encerramento da banda.
O título do álbum carrega duplo sentido: é uma expressão de entrega para a festa e, ao mesmo tempo, remete à despedida. Em declaração sobre as dificuldades de manter uma formação grande em atividade, Samuel Samuca, vocalista e fundador do grupo, ressaltou as mudanças vividas pelo coletivo.
“O tempo avança, novas prioridades da vida adulta vão surgindo e o mercado muda drasticamente, favorecendo em inúmeros aspectos os artistas solo e fazendo com que as bandas, principalmente as de grandes formações entrem, pouco a pouco num processo de extinção”
Em outra fala, o integrante admitiu a dificuldade prática de manter o coletivo.
“Tem sido difícil manter um coletivo horizontal deste tamanho e a gente, em meio a orgulho e cansaço, tem se perguntado sinceramente se ainda faz sentido”
O fim da banda não está decretado, mas entrou em pauta. O disco amplia a conversa para um luto mais amplo, que perpassa temas como crise climática, guerras, pandemias, o avanço da direita, a inteligência artificial sem controle e o individualismo — elementos que formam o pano de fundo das músicas.
“É um projeto sensível que ensaia sobre a grande merda que é o fim e a grande beleza que há em enfrentá-lo, escolhendo dançar e se entregar ao máximo pra vida enquanto ela ainda existe, ainda que em meio ao caos”
Samuca definiu também a obra como uma forma de honrar a trajetória do coletivo. Musicalmente, o grupo mantém a mistura de ritmos da música popular brasileira com elementos latinos e de jazz, em referências que vão de Marku Ribas a Sade. As letras tratam de saúde mental, especulação imobiliária, paixão, saudade e angústia. Além de Samuca, o guitarrista Allan Spirandelli e o baixista Léo Malagrino assinam composições do álbum.
A produção foi assinada por Marcos Maurício, parceiro do coletivo desde o primeiro disco, e marca a primeira coprodução assinada por Samuca. A faixa-foco é “O Tempo Leva”, um boogie brasileiro que trata o tempo como cura; nessa música, Samuca divide os vocais com Carlos Dafé, de 78 anos, conhecido como Príncipe do Soul.
Em “Teia de Aranha” participa Silvia Machete, vencedora do Prêmio da Música Brasileira em 2025 e 2026. A lambada “Flor do Mistério”, parceria de Samuca com Felipe El, traz as vozes do trio Abacaxepa (Bruna Alimonda, Carol Cavesso e Rodrigo Mancusi). O grupo também assina os backing vocals de todo o disco. A participação que abre o álbum é da avó de Samuca, Dona Deborah, de 93 anos, na faixa bônus “Bença”.
“Minha avó é uma das vozes mais lindas que eu conheço e é a pessoa que me inspirou a cantar. Cantar é a vida dela e ela canta pra fazer tudo”
O processo criativo durou cerca de 11 meses e aconteceu a partir de conversas internas entre os integrantes e o produtor. Segundo o relato sobre esse período, a alteração na formação da banda também ocorreu: um integrante se desligou para focar em projetos pessoais e foi substituído por Dominique Vieira, que assumiu a percussão.
“A gente sentou e conversou sério, todo mundo do Samuca e a Selva e o Marcos (Maurício), por umas seis horas. Ali todo mundo trouxe sua disponibilidade, suas demandas, vimos o Matheus (Prado) se despedir para focar nos seus projetos pessoais, o que abriu espaço pra chegada de Dominique Vieira, nova percussionista da banda, e pactuamos que, mesmo diante de todas as dificuldades que estávamos enfrentando, principalmente as financeiras, íamos dar um jeito de produzir um trabalho que, primeiramente, nos orgulhasse, e que fosse capaz de deixar um legado”
O lema do coletivo durante a produção foi “Menos produto, mais arte”. As gravações ocorreram em ambiente doméstico, com longas noites de trabalho e um processo descrito como minucioso e artesanal. A capa do álbum é uma pintura a óleo do artista plástico SANTVS, com elementos que misturam fé e medo, sagrado e profano; as fotos são de Kim Costa e a identidade visual é de Laercio Lopo.
O álbum ganhou também 13 visualizers, um para cada faixa, com personagens de um grande baile apocalíptico. A direção criativa é de Bruna Massarelli e Júlio Viela, com direção de Manoel Marques da Costa. Os vídeos serão publicados no canal do Samuca e a Selva no YouTube.
“Nossa ideia era retratar recortes de um grande baile que na verdade é uma representação da própria sociedade, misturando elementos de virtude e decadência, medo e esperança, luxo e pobreza, principalmente a da alma”
Formado em São Paulo, Samuca e a Selva reúne músicos vindos de projetos como Nômade Orquestra e Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. A trajetória do coletivo inclui uma indicação ao Prêmio da Música Brasileira, duas entradas na lista de melhores álbuns da APCA e parcerias com nomes como Criolo, Liniker, Luedji Luna e CATTO.
“Olhar de frente e assumir essa possibilidade do fim pra gente, sem grilos, e ao mesmo tempo topar esse projeto foi uma espécie de ritual que nos uniu como nunca e tirou um peso enorme das nossas costas”
“Temos todo esse ciclo do lançamento e vamos desfrutar muito e também conversar muito, entre nós, com os fãs, com outras bandas ao nosso redor. Pode ser que com união as coisas mudem pra melhor e a vida nos surpreenda”
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