Pesquisa Iser/Quaest mostra maioria evangélica contrária à indicação de voto por líderes (83%) e à discussão política em cultos (82%). 90% rejeitam o uso eleitoral das igrejas.
Uma pesquisa nacional sobre religião e vida pública revelou que a maioria dos evangélicos rejeita o uso de igrejas para fins eleitorais e não aceita a indicação de voto por lideranças religiosas. O levantamento, realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria, foi divulgado na semana passada e traz dados sobre atitudes religiosas e políticas no país.
O estudo mostrou que 83% dos entrevistados são contrários à indicação de voto por pastores e padres; 82% rejeitam a discussão política durante cultos e missas; e 90% se posicionaram contra campanhas eleitorais dentro dos espaços religiosos. Esses números foram obtidos em uma amostra de 15 mil entrevistas presenciais realizadas em 412 municípios brasileiros, em janeiro e fevereiro deste ano, com margem de erro de 1%.
O posicionamento público de lideranças religiosas, contudo, não significa que a fé esteja ausente da política. A pesquisa indica que a influência ocorre, em grande medida, pela formação de valores, identidades e pertencimentos, mais do que pela transferência direta de votos entre pastores e seus fiéis.
“O voto deveria ser do cidadão e não da religião”
Essa declaração foi feita pelo pastor Lucas Oliveira, 30 anos, que atua em uma igreja batista de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O pastor relata que a politização dos espaços religiosos gerou divisões e deixou marcas em comunidades eclesiais.
“Conheço pastor que lá em 2018 estava fervorosamente apoiando candidaturas, mas que hoje não quer nem tocar nesse assunto, quer esquecer que um dia fez campanha política. Porque com isso ele perdeu um número expressivo [de fiéis] da igreja. E o número não volta. Eu recebi muita gente. Nesse período, eu dialoguei com muita gente que estava machucada. Então, a igreja hoje, quando o assunto é política, se tornou um lugar de pessoas machucadas”
O pastor Moisés Blanco, 46 anos, da Igreja Batista Peregrina, em Natal, identifica movimento de reação dentro do campo evangélico contra a politização dos templos e participa da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que reúne religiosos preocupados com o uso político dos espaços religiosos.
“Essa consciência faz parte da gênese da maioria dos protestantes, da maioria dos evangélicos”
“Era a luta contra o absolutismo, contra justamente essa unificação de Estado e rei e uma religião que era reflexo do próprio Estado”
A pesquisadora Lívia Reis, do Iser, afirmou que é mais adequado falar em mediação religiosa do voto do que em transferência direta de votos e observou que o protagonismo público de algumas lideranças nem sempre coincide com o que a base dos fiéis considera legítimo dentro do espaço religioso.
“É mais correto falar em mediação religiosa do voto do que em transferência de votos”
O levantamento também apresenta uma radiografia das filiações religiosas: o segmento evangélico corresponde a 29% da população brasileira, sendo 70% pentecostais, 17% protestantes e 10% evangélicos sem igreja. A Assembleia de Deus é a maior denominação entre evangélicos (32%), seguida por um conjunto de milhares de outras denominações (28%). Evangélicos sem igreja e batistas aparecem com 10% cada; Congregação Cristã, Igreja Universal e Igreja do Evangelho Quadrangular representam 7%, 5% e 4%, respectivamente. O catolicismo alcança 50% da população, distinguindo-se entre praticantes (31%) e não praticantes (19%).
Apesar da rejeição majoritária à politização dos templos, a pesquisa aponta que religião e valores religiosos permanecem presentes no ambiente digital, em grupos e redes de confiança fora das igrejas, influenciando comportamentos e preferências políticas de milhões de cidadãos.
Siga o Clarim Gospel e receba as notícias do mundo gospel em primeira mão.
