A recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas gerou uma série de discussões sobre a soberania do Brasil e a influência dos EUA na América Latina. Especialistas em geopolítica, economia e relações internacionais analisam essa medida como parte de uma nova abordagem do governo americano, que busca impor uma “soberania limitada” aos países da região.
De acordo com os analistas, essa decisão pode ser vista como uma forma de subordinar as políticas brasileiras aos interesses de Washington. O professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, destaca que tal classificação permite ao governo dos EUA agir contra indivíduos ligados a essas facções sem a necessidade de uma declaração formal de guerra ou autorização do Congresso.
“O enquadramento como organização terrorista, pela lei americana, permite que o governo dos EUA ataque agentes de tais entidades, sem necessidade de declaração de guerra, nem autorização do Congresso dos EUA”, afirma o especialista.
O cientista político Francisco Carlos Teixeira da Silva complementa que essa ação faz parte de uma doutrina que visa reafirmar a influência americana sobre a América Latina, uma vez que, segundo ele, os Estados Unidos estabelecem que os países da região têm uma soberania limitada.
“Os EUA estabelecem o fato de que os países da América Latina têm soberania limitada pelos interesses americanos”, disse o professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, publicada em novembro de 2025, enfatiza a necessidade de os EUA reafirmarem sua proeminência na região. Para alguns analistas, isso visa diminuir a independência dos países latino-americanos e restaurar a hegemonia dos Estados Unidos.
Além disso, a decisão levanta preocupações sobre possíveis intervenções políticas, uma vez que a classificação de facções como terroristas pode servir de justificativa para ações diretas. O historiador Teixeira menciona que, em casos anteriores, como o do México, essa classificação resultou na infiltração de agentes da CIA sem a autorização do governo local.
“Logo em seguida, os EUA enviaram uma equipe da CIA para dentro do México sem autorização”, explica Teixeira.
Essa situação gera receios entre especialistas de que a designação de facções como terroristas possa ser usada para rotular outros grupos no Brasil, inclusive movimentos sociais, como apoiadores do terrorismo, sem evidências concretas. O professor Luiz Carlos Prado, da UFRJ, afirma que essa prática pode ameaçar a autonomia do Brasil em sua política externa.
“Significa que o Brasil não deve ser um país soberano, que a soberania do Brasil está subordinada ao poder político americano”, alerta Prado.
A discussão sobre a soberania nacional e a influência externa é fundamental em um momento em que as relações entre Brasil e Estados Unidos se tornam cada vez mais complexas, destacando a necessidade de um diálogo respeitoso e alinhado com os interesses nacionais.
Siga o Clarim Gospel e receba as notícias do mundo gospel em primeira mão.
