Vladimir Safatle defende que intelectuais não devem hesitar em identificar movimentos autoritários. Para ele, apoiadores fazem um cálculo frio: excluir o outro para garantir o próprio espaço.
O filósofo Vladimir Safatle, conhecido por suas análises sobre movimentos contemporâneos, argumenta que é fundamental para os pensadores não temerem classificar movimentos autoritários da direita como fascistas. Em entrevista, ele enfatizou a importância de reconhecer esse fenômeno e entender que seus apoiadores realizam um cálculo racional sobre a sociedade.
“É mais ou menos o seguinte: ‘não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu’”, afirmou Safatle.
O professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) critica a naturalização de formas de violência em democracias liberais, especialmente quando essas ocorrem em determinados contextos e contra grupos específicos. Safatle defende que a academia deve refletir sobre a evolução do conceito de fascismo, em vez de restringi-lo a um fenômeno histórico específico da década de 1930 na Itália.
“Uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há mesmo um fascismo que é um elemento constituinte da nossa história, da nossa realidade, eles acabam sendo cúmplices desse processo”, declarou.
Safatle também abordou a relação entre a violência do fascismo histórico e o colonialismo, afirmando que a estrutura de violência do fascismo é uma derivação das práticas coloniais. Ele destaca que a violência fascista se manifesta de maneira sistemática contra certos grupos sociais dentro das democracias contemporâneas.
“É impossível falar em democracia se você não coloca uma questão posterior que é: democracia na perspectiva de quem?”, questionou o filósofo.
Durante a entrevista, Safatle apontou que a experiência da democracia varia significativamente conforme o contexto social. Ele exemplificou que, enquanto algumas pessoas se sentem seguras em seus lares, outras, que habitam áreas mais vulneráveis, enfrentam realidades violentas que tornam a discussão sobre democracia um tema complexo e até ofensivo.
O filósofo participará do debate “Novos Fascismos Globais”, que ocorrerá no próximo sábado, 6 de junho, às 11h40, dentro da programação d’A Feira do Livro, em São Paulo. Este evento promete trazer à tona questões relevantes sobre os desafios e as expressões do autoritarismo na sociedade atual.

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