O primeiro volume de Chico 2.0 reúne releituras de clássicos de Chico Buarque com nomes como Xênia França, MC Livinho e Tasha & Tracie. A produtora Camila Rebouças fala sobre a ideia, parcerias e desafios da produção.
No último mês foi lançado o primeiro volume de “Chico 2.0”, projeto que propôs uma nova leitura para clássicos da obra de Chico Buarque. O álbum incluiu colaborações de artistas de diferentes gêneros e gerações e trouxe releituras de faixas que marcaram a carreira do compositor, como “Cálice”, “Construção” e “João e Maria”.
Colaborações
- MC Livinho
- MC Cabelinho
- BUDAH
- Xênia França
- Júlia Mestre
- Tasha & Tracie
Em entrevista, Camila Rebouças — produtora executiva do projeto — falou sobre a origem da ideia, o processo de produção, as parcerias e os desafios enfrentados para viabilizar o projeto. Segundo ela, a concepção inicial partiu de nomes ligados à direção artística e à produção.
“A ideia nasceu de Celso Athayde, Felipe Poeta e Fabio Almeida. A vontade deles era criar uma ponte entre a genialidade de um dos maiores patrimônios da música brasileira – a obra de Chico Buarque –, e a sonoridade da cultura urbana atual. Ambos contam e representam a história do Brasil ‘real’, das ruas e do cotidiano. Como produtora executiva, contribui para transformar esse conceito em operação: estruturar o projeto, viabilizar a produção e garantir que essa ambição saísse do papel. É um trabalho complexo e absolutamente coletivo”.
Camila explicou que a proposta do projeto foi revisar a obra de Chico a partir de sonoridades como rap, trap, funk, R&B, samba, soul e nova MPB, preservando as melodias e letras originais e buscando um diálogo entre gerações por meio dos arranjos.
“Os produtores musicais foram os grandes responsáveis por esse trabalho e o encontro dos dois já é um diálogo entre gerações. Alê Siqueira é um maestro com mais de 35 anos de estrada, que já trabalhou com o próprio Chico e com lendas da MPB. Ao lado dele, Felipe Poeta, um jovem gênio dos beats e da música eletrônica. Juntos, eles tiveram liberdade artística total e realizaram um trabalho minucioso”.
“Os novos arranjos, os beats e as bases foram construídos primeiro, com todo o cuidado técnico, acompanhando as partituras e seguindo fielmente as melodias originais. Só depois entraram as vozes garantindo que todas as letras fossem gravadas exatamente de acordo com as composições. ‘Atualizar’ nunca significou reescrever Chico, e sim trazer uma sonoridade contemporânea por meio de novos arranjos, timbres e beats”.
Sobre a seleção dos intérpretes, Camila disse que o processo envolveu a escolha prévia das quase 20 músicas que integraram o projeto e um trabalho conjunto entre direção artística e produtores para combinar estilo, complementaridade e mensagem de cada faixa.
“Tudo começou pela escolha das quase 20 músicas que integram o projeto, o que já foi complexo dado ao vasto repertório do Chico. A partir daí, ao lado da direção artística (Celso Athayde, Fabio Almeida e Preto Zezé) e dos produtores musicais (Alê Siqueira e Felipe Poeta), montamos um complexo quebra-cabeça para escolher qual canção cada artista interpretaria, considerando estilo, complementaridade dos feats, musicalidade e a mensagem por trás de cada faixa”.
“Por exemplo, o MC Cabelinho em ‘Cálice’ carrega a vivência do silenciamento e da opressão cantado na música e compartilha a faixa com Xênia França, artista que tem uma sofisticação vocal única. Tasha & Tracie trazem para ‘Deus Lhe Pague’ a força de duas mulheres pretas com personalidade musical muito própria. MC Livinho, em ‘Pivete’, tem a malandragem e a ginga da rua que a música pede e olhando para o Brasil de hoje. Existem dezenas dessas sutilezas espalhadas pelo álbum que o público vai se encantar ao descobrir”.
“Sim. Alguns dos feats que estão no álbum não estavam no plano original e aconteceram do interesse de mais de um artista pela mesma música. Mas isso não foi uma regra, em alguns casos oferecemos outra canção do repertório e, para nossa surpresa, o resultado acabou sendo ainda mais surpreendente”.
“Sob a perspectiva executiva, foi superar a etapa de convidar e confirmar a participação de mais de 20 artistas de gerações, gêneros e agendas completamente diferentes, com todos convergindo para um ponto em comum: a obra de Chico. Depois disso, a complexidade esteve em conciliar essas agendas e cumprir cada etapa dentro de um prazo bastante apertado até o lançamento”.
“A logística também foi um desafio gigante. O projeto foi gravado simultaneamente em três estados diferentes, o que exigiu que os produtores se dividissem para dar conta de tudo. E, apesar de contarmos com um time 100% brasileiro do início ao fim, a masterização foi feita nos Estados Unidos. Tudo isso exigiu uma grande engrenagem por trás de cada faixa e uma equipe com alto grau de competência e comprometimento”.
“Foi conseguir um resultado final coeso e potente a partir de tantos elementos distintos. Só alcançamos esse objetivo por conta do trabalho harmônico e excelente do time inteiro que participou desse projeto. Conseguir juntar tantos artistas de universos tão diferentes em torno de uma obra só e sem perder identidade foi muito poderoso. Outro grande triunfo foi a aprovação do próprio Chico.”
A publicação original desta reportagem ocorreu em 09/09/2026.
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