Especialistas apontam que cortes fiscais para os mais ricos, inflação ligada à guerra no Oriente Médio e tarifas elevaram a dívida. Gastos militares altos e juros (US$1,1 tri) agravam a pressão fiscal.
A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões pela primeira vez na história. Economistas consultados avaliaram que o avanço foi motivado principalmente pela redução de impostos para os mais ricos, pela inflação associada à guerra no Oriente Médio — que pressionou os preços dos combustíveis — e pelas tarifas de importação implementadas pelo governo anterior.
Além desses fatores, especialistas apontaram a manutenção de elevados gastos militares, próximos a US$ 1 trilhão, e o aumento das despesas com juros sobre a dívida, que chegaram a US$ 1,1 trilhão — valor mais que o dobro do registrado em 2021, quando os juros consumiram US$ 419 bilhões dos contribuintes.
Entre os motivos para o aumento dos juros dos títulos do Tesouro foram citadas a inflação decorrente do conflito no Oriente Médio e o que alguns analistas identificaram como o “risco Trump”, ligado a decisões de política comercial que geraram incertezas no mercado, como o conflito tarifário com o Canadá. Segundo esses especialistas, essa conjuntura pressionou o prêmio exigido pelos investidores na aquisição de títulos públicos.
Apesar do montante recorde, os economistas consultados rejeitaram a ideia de que os Estados Unidos estejam, no momento, em risco de insolvência, definida como a incapacidade de honrar pagamentos. Em geral, eles observaram que a capacidade do país de emitir sua própria moeda e o papel do dólar como principal reserva internacional mitigavam esse risco, mas advertiram que a situação fiscal tende a impor pressões sobre as taxas de juros globais, inclusive no Brasil.
O professor do Instituto de Economia da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos destacou que o valor elevado da dívida não implica automaticamente insolvência, porque o país emite a própria moeda e o banco central tem instrumentos para atuar no mercado.
“Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o FED [Federal Reserve, o Banco Central dos EUA] pode comprá-los. Foi o que fez em 2020, quando expandiu o balanço em quase US$ 3 trilhões em três meses. E foi o que fez entre 1942 e 1951, quando travou o juro dos títulos longos em 2,5%.”
Após o anúncio do nível recorde da dívida, a Secretaria do Tesouro dos EUA informou que aumentaria as operações de compra de títulos no mercado, com a previsão de dobrar o montante de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões a partir de 9 de setembro.
Outro economista consultado ponderou que o valor absoluto de US$ 40 trilhões precisa ser analisado em relação ao tamanho da economia e ao contexto internacional, lembrando que déficits fiscais persistentes têm marcado as principais economias desde 2008.
Quanto à composição da dívida, foi lembrado que dois terços do estoque negociável estavam em mãos domésticas e que cerca de US$ 4,5 trilhões estavam no balanço do banco central. Também foram citados cerca de US$ 8 trilhões em títulos detidos pelo próprio governo e aproximadamente US$ 32 trilhões no mercado, cenário que se aproximou do patamar histórico registrado ao final da Segunda Guerra Mundial.
“Os estrangeiros continuam comprando. O que subiu foi o preço cobrado, não a recusa em comprar.”
Os especialistas ressaltaram ainda que a política de cortes de imposto no topo da distribuição, aplicada durante os mandatos do ex-presidente, contribuiu para a elevação do endividamento ao reduzir a arrecadação. Em 2025, medidas adicionais de redução tributária para os mais ricos foram aprovadas, estimadas em aumento de déficit de US$ 4,7 trilhões em dez anos, ao mesmo tempo em que houve cortes de aproximadamente US$ 1 trilhão em gastos com saúde pública no mesmo horizonte.
“O Trump aposta nessa política característica dos republicanos, que é tirar a tributação dos ricos sob a justificativa de tentar expandir a economia. O que se vê é um aumento do endividamento dos EUA no governo Trump 2 por conta dessa abordagem de política econômica.”
O professor destacou que a menor tributação sobre lucros contribuiu para maior concentração de renda e que os juros pagos sobre títulos beneficiam fundos, bancos e as famílias mais ricas.
“A receita do imposto sobre lucros caiu 23% neste ano fiscal. Já os juros vão para quem tem títulos: fundos, bancos e as famílias mais ricas. O 1% mais rico detém metade das ações do país.”
Entre os riscos apontados, sobressaiu o risco político de impasse sobre o teto da dívida, caso o Congresso se recuse a autorizar aumentos necessários, e o risco de juros de longo prazo mais elevados, impulsionados por inflação e incertezas políticas e comerciais. Em apenas cinco meses, a dívida cresceu cerca de US$ 1 trilhão, antecipando projeções do Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO), que previa a marca de US$ 40 trilhões apenas para 2027.
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