Um estudo recente revelou que cerca de 50% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio no Brasil não reconhecem a discussão sobre desigualdades raciais em suas salas de aula. Este levantamento foi divulgado na última terça-feira, 26 de maio, e destaca a necessidade urgente de uma abordagem mais efetiva do tema nas instituições de ensino.
O estudo, intitulado “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023”, foi realizado em parceria entre o Núcleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), e os institutos Alana e Geledés. A pesquisa evidenciou que, apesar das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que promovem o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena, muitos estudantes ainda não têm acesso a essas discussões significativas.
“Eu acho que é a primeira vez que a proposta é com essa perspectiva da contribuição do negro, mas ainda acho um pouco caricato”, afirmou Karina Berardo, advogada e mãe de uma estudante que teve um trabalho sobre a cultura negra.
A advogada destacou que, embora o tema tenha ganhado mais espaço no ensino médio, a abordagem ainda é rara e limitada. Segundo Flávia Rios, socióloga da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Cebrap, a implementação da legislação antirracista nas escolas tem sido irregular, dependendo de iniciativas isoladas de secretarias de educação ou do Ministério da Educação.
Flávia também mencionou que, apesar de diversos projetos terem sido desenvolvidos ao longo dos últimos 20 anos, a aplicação da legislação ainda não é universal, o que resulta em uma experiência educacional desigual. “Essas legislações têm o objetivo de mudar mentalidades, ensinar conteúdos e promover comportamentos cidadãos”, enfatizou.
Além disso, o estudo revelou um descompasso entre o que os professores afirmam ensinar sobre desigualdades raciais e o que os alunos percebem. Enquanto 81,6% dos professores do 9º ano e 71,6% do 3º ano do ensino médio afirmam abordar o tema frequentemente, menos da metade dos alunos reconhece essa prática. Isso aponta para a necessidade de um monitoramento mais eficaz da política pública educacional.
“A educação antirracista não deve ser entendida apenas como uma política voltada para estudantes negros, mas como uma formação cidadã para todos os grupos sociais”, destacou Eliane Firmino, pesquisadora do Cebrap.
Para que mudanças reais ocorram, Suelaine Carneiro, coordenadora do Programa de Educação e Pesquisa do Instituto Geledés, ressaltou a importância da fiscalização e do engajamento de todos os educadores, não apenas dos que pertencem a grupos raciais historicamente marginalizados.
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