Levantamento do Hospital Israelita Albert Einstein aponta aumento de 44,5% na entrega de natalizumabe pelo SUS entre 2019 e 2023. Mais de 1,7 milhão de registros foram analisados para avaliar a incorporação de terapias de alta eficácia.
Publicado em 24/08/2026. Uma análise de dados realizada por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita indicou que, após a revisão das diretrizes nacionais, a distribuição pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de natalizumabe — medicamento indicado para formas mais agressivas de esclerose múltipla — aumentou 44,5% entre 2019 e 2023 em todo o país.
O estudo avaliou os impactos da atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para a doença, implementada em 2021, e identificou avanços na incorporação de terapias de alta eficácia. Foram analisados mais de 1,7 milhão de registros de distribuição dos medicamentos, e o resultado foi publicado na revista Multiple Sclerosis and Related Disorders.
Além do aumento na distribuição de natalizumabe, os pesquisadores observaram crescimento na utilização de outras terapias de alta eficácia e uma redução no uso de medicamentos injetáveis de menor eficácia. No mesmo período, o número de pacientes em tratamento pelo SUS cresceu 25,9%, o que indica maior acesso ao cuidado especializado.
O estudo apontou mudanças no padrão terapêutico após a atualização do protocolo nacional: a migração de pacientes para terapias de alta eficácia aumentou 82%, enquanto as trocas entre medicamentos de eficácia semelhante diminuíram 54%, sinalizando maior adoção de estratégias alinhadas às evidências científicas mais recentes.
A velocidade de incorporação das terapias de alta eficácia variou entre os estados brasileiros, sendo mais rápida em locais com maior concentração de neurologistas e centros especializados no atendimento à esclerose múltipla, segundo a análise.
Sobre os benefícios de políticas públicas baseadas em evidências, a neurologista, coordenadora do Instituto do Cérebro do Einstein e uma das autoras do estudo, Lívia Almeida Dutra, ressaltou os efeitos esperados na prática clínica.
“Quando as diretrizes passam a incorporar terapias mais eficazes, aumentam as oportunidades de os pacientes receberem tratamentos capazes de controlar melhor a atividade da doença e reduzir o risco de incapacidade ao longo do tempo”.
Lívia Almeida Dutra afirmou ainda que, com as evidências geradas, é possível identificar experiências bem-sucedidas e adaptá-las a diferentes realidades, e que fortalecer a rede de atendimento especializado é caminho para ampliar o acesso às melhores opções terapêuticas em todas as regiões do país.
O gerente do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde do Einstein Hospital Israelita e também autor do estudo, Lucas Hernandes Correa, destacou a importância do acompanhamento de grandes bases de dados para avaliar resultados de políticas públicas e orientar investimentos.
“O acompanhamento de grandes bases de dados é fundamental para verificar se uma política pública está produzindo os resultados esperados, além de orientar investimentos em infraestrutura, serviços especializados e capacitação profissional. Evidências do mundo real ajudam a qualificar a tomada de decisão e a construir um sistema de saúde mais eficiente e centrado nas necessidades dos pacientes”.
O estudo contou com a participação da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Registro de Doenças Neurológicas (REDONE). A atualização do PCDT, publicada pelo Ministério da Saúde, incorporou novas evidências científicas ao tratamento da esclerose múltipla no SUS e passou a recomendar o uso do natalizumabe como primeira opção para pacientes com esclerose múltipla remitente-recorrente de alta atividade, inclusive sem necessidade de falha prévia a outras terapias.
Esclerose múltipla é uma doença neurológica autoimune e crônica em que o sistema imunológico ataca estruturas do sistema nervoso central, comprometendo a comunicação entre cérebro e corpo. Embora não tenha cura, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem reduzir a frequência dos surtos, retardar a progressão da incapacidade e preservar a qualidade de vida dos pacientes.
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