A morte do influenciador e fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, cujo atestado de óbito apontou um quadro de cardiomiopatia hipertrófica, reacendeu o debate sobre os impactos do uso de anabolizantes na saúde do coração.
Com 1,7 milhão de seguidores nas redes sociais, Ganley compartilhava sua rotina de treinos e já havia revelado o uso de hormônios anabolizantes em sua preparação física. Ele foi encontrado morto em seu apartamento na Mooca, em São Paulo, no último sábado, 23 de maio.
“Em muitos pacientes, o uso de anabolizantes em doses elevadas acaba levando à hipertrofia do coração. O coração cresce acima do normal porque ele também é um músculo. A hipertrofia que aumenta os músculos dos braços, das pernas, também aumenta o coração”, explica o cardiologista Herbert Lima Mendes, professor do Instituto de Educação Médica (Idomed).
Os esteroides anabolizantes (EA) são drogas sintéticas que têm como função central a reposição de testosterona, o principal hormônio masculino. Seu uso regular é indicado em casos de déficit hormonal, como no envelhecimento. No entanto, seu uso sem supervisão médica para fins estéticos e de performance esportiva é proibido e altamente prejudicial à saúde.
A cardiomiopatia hipertrófica causa o espessamento anormal do músculo cardíaco, dificultando o bombeamento de sangue e o relaxamento do coração. Essa condição é uma das principais causas de morte súbita em jovens e atletas. Lima Mendes ressalta que, a longo prazo, o crescimento do coração pode levar à insuficiência cardíaca.
“Os atletas dizem que isso acontece com os outros, não vai acontecer comigo. Eu não vou ter nada”, afirma.
O médico alerta que a ansiedade em obter resultados leva muitos a aumentarem a dose e o número de substâncias usadas, elevando o risco de morte. “Infelizmente, muitas pessoas usam anabolizantes sem fazer avaliação cardiológica. E, quando descobrem alguma doença, já estão em uma fase que não dá para fazer nada”, destaca.
A médica Marcely Bonatto, diretora da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), explica que a cardiomiopatia tem um fundo genético e pode afetar uma em cada 500 pessoas. “Muitas pessoas não sabem que têm por serem assintomáticas. Mas existe um grande pano de fundo de transmissibilidade genética”, afirma.
Independentemente do uso de anabolizantes, Bonatto acredita que Gabriel Ganley poderia ser portador da cardiomiopatia sem saber. Para confirmar se a morte foi exclusivamente causada pelo uso de substâncias, seriam necessários exames cardíacos anteriores.
“Se for considerar só o laudo da declaração de óbito, poderia-se pensar que ele tinha cardiomiopatia hipertrófica e essa predisposição, mas o anabolizante pode ter sido um fator agravante”, esclarece.
Para prevenir doenças cardíacas, Bonatto enfatiza a importância de exames regulares, especialmente para atletas de alto rendimento. Exames como eletrocardiograma e ecocardiograma poderiam ter diagnosticado a cardiomiopatia hipertrófica no caso de Ganley, evitando sua morte.
Ela adverte que nem sempre é necessário esperar por sintomas. Entre os sinais que podem indicar a necessidade de investigação cardiológica estão falta de ar, dor no peito e histórico de morte súbita na família. Além disso, o uso de anabolizantes para fins estéticos e de performance é proibido no Brasil, sendo indicados apenas em casos de deficiência real de testosterona.
Bonatto ressalta que a utilização indiscriminada de anabolizantes tem aumentado entre os jovens, muitas vezes sem acompanhamento médico, resultando em casos graves. “A gente já teve pacientes jovens que precisaram de transplante cardíaco por uso inadequado de anabolizantes”, alerta.
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