Presente no Rock in Rio desde a estreia em 1985, Zé Ricardo hoje define quem sobe aos palcos da Cidade do Rock. Vice-presidente artístico, diz que provoca público e artistas e aposta em encontros entre gêneros.
Zé Ricardo foi pela primeira vez ao Rock in Rio em 1985, ano da estreia do festival. Quarenta anos depois, é ele quem decide quem sobe aos palcos da Cidade do Rock e assume que parte do seu trabalho na construção do line-up é provocar tanto o público quanto os artistas.
“Em 1985, fui para ver as bandas, não sonhava que um dia seria vice-presidente artístico da Rock World. Parte do meu trabalho na construção de um line-up também é provocar. Provocar o público e provocar o artista”, diz Zé Ricardo.
Ao longo da última década, o curador tem priorizado encontros inesperados que aproximam gêneros distintos: no passado, houve, por exemplo, conjugações como Sepultura dividindo palco com Zé Ramalho, Ney Matogrosso cantando com Nação Zumbi e Xamã levando artistas indígenas para o rap. Nesta edição, a lista de cruzamentos inclui novas combinações que reforçam essa aposta.
Line-up e encontros
Palco Sunset
- Jota Quest — tocando repertório de Tim Maia
- Capital Inicial — com participação de Dado Villa-Lobos
- Péricles — interpretando canções da Motown
O Palco Sunset chegará aos 15 anos como o espaço das combinações inesperadas do festival, mantidas como elemento central da curadoria. Sobre a trajetória do palco, o curador observa que o formato deixou de ser surpresa eventual para se tornar motivo de escolha por parte do público.
“Se em 2011 o Sunset era uma surpresa, hoje podemos dizer com muito orgulho que muitos fãs vão ao festival para assistir aos conteúdos que ele traz. Querem saber o que virá, para fazer suas escolhas. E isso é maravilhoso”, aponta Zé Ricardo.
Outras atrações
- João Gomes — apresentação com orquestra, com instrumentos típicos de diferentes regiões do país
- K-pop — presença confirmada no line-up de 2026
- Elton John — convidado para uma das últimas turnês
Para o curador, a inclusão de estilos como o K-pop e a manutenção de nomes tradicionais respondem a objetivos distintos: representar onde a música está circulando hoje e, ao mesmo tempo, reforçar o vínculo com plateias que acompanham o festival há décadas. Sobre a chegada de novos ritmos, Zé Ricardo vê a ação como forma de ampliar o repertório do público.
“Um movimento como o k-pop não poderia ficar de fora por muito tempo”, diz Zé Ricardo.
O curador destaca também a intenção de criar encontros que não sejam apenas superficiais: as combinações são planejadas e trabalhadas para oferecer experiências significativas ao público. Ele coloca como meta pessoal provocar transformação por meio das escolhas do line-up.
“A busca por promover encontros passa por criar experiências únicas para o público, mas a diferença é que não são experiências rasas. Tudo é muito trabalhado, muito mergulhado”, diz Zé Ricardo.
“Se uma pessoa entra no Rock in Rio e sai igual, meu trabalho não foi concluído”, acrescenta.
O curador afirma que a presença de palco é critério decisivo na escalação: mais do que números em redes sociais, interessa como o artista chega, como segura o instrumento e que atitude demonstra no palco.
“É isso que me faz olhar e pensar: esse cara é artista”, declara Zé Ricardo.
Zé Ricardo também comenta o aspecto geracional do festival e sua capacidade de atrair três gerações da mesma família: um mesmo line-up pode interessar ao avô, ao pai e ao filho, reforçando a transversalidade da música. Ele cita iniciativas temáticas, como o Dia do Divino Feminino, e encontros que anteciparam debates sociais, ressaltando a ideia de que promoção de transformação exige ação concreta.
“O Rock in Rio tem esse aspecto tão relevante do geracional, de você querer vir ao festival com o seu pai, com seu avô”, diz Zé Ricardo.
“O público quer que você apresente coisas novas, quer ser surpreendido”, diz, e completa: “O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”.
Ao final, o curador resume a lógica do festival: trazer novos estilos e produzir encontros é parte da evolução do evento e da oportunidade de artistas ampliarem sua base de fãs ao serem apresentados a plateias que ainda não os conheciam. Essa dinâmica, na visão dele, é a essência do que mantém o festival relevante e em diálogo com o público.
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