A Bolívia vive momento de tensão após o governo firmar acordo com trabalhadores e decretar estado de exceção. A medida autoriza o uso das Forças Armadas para conter manifestantes nas ruas.
Na Bolívia, o número de bloqueios de rodovias, que protestavam contra as políticas do governo de Rodrigo Paz, diminuiu consideravelmente após a assinatura de um acordo com a Central Operária da Bolívia (COB). Este acordo foi firmado na última sexta-feira, dia 19 de junho, e, no dia seguinte, ao mesmo tempo em que o estado de exceção foi decretado pelo governo, o que permite a implementação de toque de recolher em áreas específicas.
O estado de exceção, confirmado pelo Parlamento na madrugada de domingo, possibilita ao governo o uso das Forças Armadas para reprimir manifestantes, após um período prolongado de 50 dias de protestos. Durante esse tempo, o país chegou a registrar mais de 80 bloqueios em diferentes rodovias, que culminaram em escassez de alimentos e medicamentos em várias cidades.
De acordo com a Administradora de Estradas Bolivianas (ABC), o número de bloqueios caiu para 12 ao longo do domingo, refletindo uma diminuição significativa em relação ao início do dia, quando 31 bloqueios ainda eram contabilizados em regiões como La Paz, Cochabamba, Oruro e Santa Cruz.
A doutoranda em ciência política Alina Ribeiro, da Universidade de São Paulo, comentou que o desgaste gerado pelos longos dias de protesto contribuiu para a redução das mobilizações. Ela destacou que as manifestações não apenas paralisaram as cidades, mas também resultaram em perdas de vidas.
Os protestos na Bolívia aumentaram desde janeiro, atingindo seu pico em maio e junho, após a promulgação de uma lei de terras que gerou descontentamento entre os camponeses. Os grupos manifestantes passaram a exigir a renúncia do presidente Rodrigo Paz, que está no poder há apenas sete meses, em um contexto de 20 anos de administrações de esquerda.
O presidente da COB, Mario Argollo, anunciou que o acordo estabelece um período de 90 dias para avaliar os compromissos assumidos pelo governo. Em suas declarações, Argollo enfatizou a necessidade de pacificação e pediu aos grupos manifestantes que suspendessem os bloqueios.
“A bola está do lado do governo. Se ele conseguir trabalhar nos aspectos centrais nacionais e estruturais, seguramente o povo vai aplaudir. Se faltar a isso, o povo o buscará”, afirmou Argollo após o encontro com o presidente.
O acordo também inclui a não criminalização dos protestos e a proteção de lideranças sociais. O governo se comprometeu a não privatizar empresas públicas estratégicas e a não transferir recursos nacionais a interesses privados. O presidente Rodrigo Paz comemorou a assinatura do acordo, reafirmando seu compromisso com a mineração estatal e a geração de empregos.
Após o estado de exceção, Paz caracterizou os protestos como uma tentativa de desestabilização orquestrada, ligando-os ao narcotráfico. Em contrapartida, o ex-presidente Evo Morales defendeu que as manifestações são uma expressão legítima do povo boliviano.
Entretanto, algumas organizações ainda insistem em continuar os bloqueios até a renúncia de Paz, ressaltando que as decisões devem ser tomadas em conjunto com o povo e não por líderes que, segundo eles, traem o mandato popular.
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